domingo, 20 de setembro de 2009

"O homem de um drible só"


Era uma tarde sombria de sábado, onde o céu carregado exibia uma imensa carranca cinza, e bradava em respeitáveis trovões o tom de humor do tempo.
Na rua não asfaltada, do conjunto habitacional “A Paz Mora No Bairro Vizinho”, os moleques bicavam a bola com seus dedões descalços. Eis que um garotinho tristonho, franzino, e de boca suja, sentou-se afastado dos demais e ficou ali, solitário, vez ou outra se erguendo e bicando sua bola de capotão contra um moro qualquer.
O garotinho não havia notado que todos outros garotos correram para dentro de suas casas devido à ameaça de temporal, tampouco viu que do outro lado da rua era observado por um estranho que trazia um saco nas costas, usava barbas que ocultavam os traços da face e trajava trapos duros de sujeira.
O pequeno garoto apanhou a bola e com os olhos arregalados ficou paralisado de pavor, ao ver o estranho homem do saco dirigir-se em sua direção com um sorriso de dentes podres.
_Olá garotinho! Qual seu nome? Disse o estranho, porém o garotinho permanecia mudo, imóvel.
O estranho largou o saco no chão e, estendendo as mãos, disse: _Passa a gorduchinha garoto.
O garoto simplesmente deixou a bola cair de suas mãos e esta fora diretamente aos pés do andarilho; este tinha intimidade com o brinquedo, e o fez subir de um pé e amparou com o outro, em seguida fez uma seqüência das mais difíceis de embaixadas, e por fim deu um forte chute na bola que subiu absurdamente, tardando uns bons segundos a retornar na nuca do sujeito, que acendendo um cigarro e com a bola colada em seu cangote disse ao garoto:
_Garoto, faz tempo que eu estava lhe observando, e gostei de você pivete; você tem garra, é cabeçudo, mas tem garra; vou lhe ensinar um truque que aprendi com o alquimista que deu este toque num tal de Edson Arantes. Dominando este truque os estádios do mundo iram reverenciá-lo, garoto.
O homem tornou á bola, encarou o garoto e disse: _Venha, roube-a se for capaz. E então, com uma puxadinha na bola com o pé direito fez a bola passar por trás da perna esquerda driblando o garoto e tomando sua frente. Repetiu o truque por diversas vezes, e na última disse: _Com esse truque, garoto, vai conquistar a fama, o mundo; o mundo!
Em seguida o forasteiro se afastou deixando o garotinho perplexo com a bola entre as mãos, imóvel. Sua mãe, que já vinha ao portão, perguntou: _O que fazia com aquele estranho Juvenalzinho Boquinha do Inferninho?
_Nada mamãe.
Durante toda sua vida Juvenal Boca do Inferno repetiu exaustivamente aquele drible, se tornou o homem de um drible só, porém a profecia do homem do saco ainda não se cumpriu. Será que o homem do saco errou? Será que Juvenal Boca do Inferno ainda brilhará como jogador de carreira internacional? Sei não, meu rapaz. Sei não.

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